Criar uma verdadeira taxa sobre as transações financeiras

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Se tivesse sido criada uma contribuição deste tipo, em 2008, mesmo a uma taxa muito baixa, ter-se-ia já arrecadado entre 250 a 600 mil milhões de euros. A crise grega teria sido resolvida rapidamente, sem exigir sacrifícios aos povos da Europa. O que esperamos para criar então essa taxa e, assim, tranquilizar tanto o povo alemão como os outros povos europeus, dizendo-lhes que não voltaremos a pedir-lhes sacrifícios injustos? A partir daí, serão os mercados financeiros que contribuirão para alimentar o Fundo Europeu de Estabilidade.

Se Londres se opõe à criação duma taxa sobre as transações financeiras, será necessário, sem qualquer agressividade, “pôr os pontos nos ii” e ter a coragem de provocar uma crise clarificadora:

1. Os motins do verão de 2010 demonstraram que o povo inglês não suporta mais políticas de austeridade.

2. A dívida privada[1] do Reino Unido ultrapassa 230% do PIB, contra 130% em França. Se juntarmos a isso a dívida pública e, sobretudo, a enorme dívida do setor financeiro, a dívida total da Grã-Bretanha ultrapassa 900% do PIB[2]. É a demonstração da extrema fragilidade do “modelo inglês”. Dentro de 2 meses, ou de 2 anos, os ingleses virão suplicar à Europa para os ajudar a salvar os seus bancos. É preciso pôr as coisas na mesa e dizer-lhes que é hoje que devem decidir se estão ou não no mesmo barco que os outros povos da Europa.

Não poderão pedir-nos para sermos solidários amanhã, se recusam ser solidários hoje. Se os ingleses compreenderem que, de facto, todos temos o maior interesse em ser solidários, poderíamos pôr em prática rapidamente uma taxa Tobin, a um nível relativamente elevado. Se assim não for, poderemos vir a fazê-lo no âmbito da zona euro, mas a uma taxa mais baixa.

A instauração duma taxa sobre as transações financeiras é totalmente realista ao nível da zona euro (mesmo Barroso o reconhece hoje em dia), mas seria mais eficaz e daria um rendimento nitidamente mais elevado se fosse aplicada simultaneamente em toda a Europa ou no conjunto das praças financeiras mundiais. Como todos os estados precisam de desencantar novos recursos[3], todos os dirigentes do G-20 deveriam pôr em prática esta taxa sobre as transações financeiras, sem mais tardar.



[1] Dívida privada das famílias e das empresas não financeiras.

[2] Fonte: Morgan Stanley, dezembro de 2011.

[3] “A China regista um afrouxamento da sua economia e enfrenta um grande número de movimentos sociais” anuncia o Le Monde, de 6 de dezembro de 2011. Nenhum país escapa ao regresso da crise. Nenhum país pode afirmar que não necessita de recursos suplementares. É a única coisa que interessa nesta fase: estamos todos embarcados na mesma crise.